
A devoção que dá nome à nossa cidade nasceu de uma promessa feita por um capitão de navio negreiro, no meio de uma tempestade, há quase 300 anos
Todo bonfinense sabe que a cidade leva o nome do Senhor do Bonfim. Mas poucos sabem que a imagem que dá origem a essa devoção atravessou o oceano numa promessa feita em alto-mar, no meio de uma tempestade, por um homem que vivia do tráfico de pessoas escravizadas. Esse é o começo da nossa história. Setúbal, 1669 A devoção ao Senhor do Bonfim nasce em Setúbal, Portugal. Diz a tradição que uma imagem do Cristo crucificado, esculpida por um eremita da Arrábida, apareceu flutuando nas águas do Rio Sado. A cidade construiu uma pequena capela para abrigá-la, e a fama da imagem foi crescendo pela região. A devoção se espalhou pelo reino quando o próprio rei Dom João V se ajoelhou diante da imagem, pedindo pela saúde do pai, Dom Pedro II. Foi nesse cenário que entrou um homem chamado Teodósio Rodrigues de Faria. A tempestade Teodósio era capitão-de-mar-e-guerra da Marinha portuguesa, e dono de três navios negreiros. Vivia atravessando o Atlântico levando africanos escravizados para o Brasil. Em uma dessas travessias, enfrentou uma tempestade tão violenta que o navio parecia que ia se partir ao meio. Diante da morte, o capitão fez um voto: se sobrevivesse, mandaria fazer uma réplica da imagem do Senhor do Bonfim de Setúbal e a levaria para o Brasil. Sobreviveu. Salvador, 1745 Cumpriu a promessa. Em 18 de abril de 1745, a réplica desembarcou em Salvador, junto com uma imagem de Nossa Senhora da Guia. Ficou abrigada provisoriamente na Igreja da Penha, até que, em 1754, foi transferida em procissão para a Colina Sagrada, na Igreja do Senhor do Bonfim que existe até hoje, considerada a mais célebre do Brasil. A devoção pegou. Em 1773, começava a tradição da Lavagem do Bonfim, que hoje é a segunda maior manifestação popular da Bahia depois do Carnaval. A subida para Minas Da Bahia, a devoção subiu para o sertão e chegou ao Alto Paraopeba. Quando Manoel Teixeira Sobreira recebeu sua sesmaria, em 1750, e começou a desbravar as terras que viriam a se chamar Bonfim, mandou erguer uma capela em honra ao Senhor do Bonfim. A imagem veio de Portugal, seguindo a mesma rota da fé que já havia chegado a Salvador cinco anos antes. Em torno dessa capela, o povoado cresceu. Primeiro chamou-se Rocinha. Depois, em 1860, foi elevado a cidade com o nome que carregamos até hoje: Bonfim, em homenagem ao seu padroeiro. A tensão que o causo carrega Tem uma parte dessa história que não é confortável, e seria desonesto omitir. A mesma devoção que salvou Teodósio da tempestade veio nos mesmos navios que matavam africanos no porão. O Cristo do Bom Fim chegou ao Brasil dividindo o casco com o sofrimento de homens, mulheres e crianças sequestrados de suas terras. A fé do capitão era real. A crueldade do seu ofício também era. As duas coisas viajaram juntas, no mesmo navio, sob a mesma promessa. Esse paradoxo não diminui a devoção que se enraizou em Bonfim. Mas explica por que, séculos depois, na entrada da nossa cidade, foi erguido um Cristo Redentor exatamente no lugar onde existia a forca dos escravos. Como se a história estivesse, ainda hoje, tentando se reconciliar consigo mesma. Hoje Todo mês de agosto, a Festa do Senhor do Bonfim reúne milhares de devotos no Santuário em estilo rococó da nossa cidade, com altares, imaginárias e relíquias dos séculos XVIII a XX. Quando você passar lá, lembre-se: a imagem que está no altar não nasceu aqui. Veio de Setúbal, passou por Salvador, atravessou o sertão, e chegou ao Alto Paraopeba carregada por uma promessa feita há quase 300 anos, no meio de uma tempestade, por um homem que precisava ser salvo. E que, por consequência, salvou o nome da nossa cidade.
Fontes
Igreja Nosso Senhor do Bonfim, Salvador. Verbete da Wikipédia em português, com referências ao IPHAN e ao portal Salvador da Bahia. Santuário Senhor do Bonfim completa 270 anos. Portal A12, 2024. Por que a chamamos de Senhor do Bonfim. Rede GN. Bonfim, Minas Gerais. Portal Olhares por Minas. Acesso em maio de 2026. Bonfim, Circuito Veredas do Paraopeba. Histórico de Bonfim. IBGE Cidades. A Lavagem do Bonfim. Jornal Público (Portugal), 2017.